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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Nelson Barbosa e a opção pelo aumento do crédito: é viável?



O novo ministro da Fazenda do Brasil, Nelson Barbosa, declarou publicamente que o governo está analisando a possibilidade de adotar medidas para estimular o crescimento. Uma das opções em jogo envolve o aumento do crédito através dos bancos públicos e da utilização dos recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). O objetivo desse artigo é mostrar como essa alternativa deterioraria ainda mais os já combalidos fundamentos macroeconômicos do nosso País.
 

A tabela abaixo mostra o resultado do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que, entre outras funções, serve para abastecer o FGTS. Para boa parte dos últimos anos, o resultado (diferença entre receitas e despesas) ficou muito próximo do equilíbrio, ou seja, não há, historicamente, uma “sobra” significativa de recursos a ponto de fomentar substancialmente crédito. Mais do que isso: em 2013, o rombo chegou a R$ 12,2 bilhões. Todos os valores foram deflacionados a preços de dezembro de 2015 para tornar a comparação adequada.

Receitas, despesas e resultado do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT)
(Em R$ milhões deflacionados pelo IPCA acumulado até dez/15)
 


Além disso, de acordo com as projeções do próprio governo contidas na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2016 para o desempenho do FAT, não se espera uma melhora até 2018. Convém lembrar ainda que as projeções se baseiam em pressupostos bastante irrealistas. Para 2016, por exemplo, o governo estima:

PIB: +1,3%.
IPCA: 5,6%
Média da Taxa SELIC:  12,09% a.a.

Já a mediana das projeções do mercado financeiro, disponíveis no Relatório FOCUS do dia 08/01/16, dão conta que.

PIB: -2,99%.
IPCA: 6,93%.
Média da Taxa SELIC: 15,38% a.a. 


Ou seja, é improvável que o FAT tenha um resultado equilibrado, pelo menos ao longo desse ano, dado que a arrecadação é claramente superestimada, uma vez que as receitas dependem da atividade econômica.

Se o governo ainda assim optasse por usar os recursos do FAT, o rombo gerado não poderia ficar a descoberto indefinidamente. Uma das opções para cobri-lo envolve a arrecadação de fundos via Tesouro Nacional, em operações que são remuneradas através de juros de mercado. Consequentemente, a dívida como proporção do PIB, que já se encontra em trajetória francamente ascendente, cresceria ainda mais.


A ampliação do crédito através dos bancos públicos, por sua vez, também aprofundaria os desequilíbrios econômicos. Sabe-se que a inflação se encontra muito acima do tolerado pelo Regime de Metas. Promover uma política monetária expansionista vai justamente na contramão do processo de contenção da escalada dos preços, tornando ainda mais difícil o trabalho do Banco Central. Nesse cenário, a autoridade monetária deverá aumentar ainda mais os juros para tornar o comportamento da inflação mais benigno.


Ainda que o governo deseje incorrer no (elevado) custo da política de aumento do crédito, certamente não haveria um efeito de longo prazo no crescimento econômico. É evidente que a demanda arrefeceu de maneira considerável ao longo dos últimos trimestres, mas, há vários anos, o Brasil sofre com os problemas do lado da oferta, que já foram abordados nesse e nesse artigo – e que são uma das causas da redução do nosso crescimento potencial.

Em suma, a proposta avaliada por Nelson Barbosa falha no diagnóstico da atual crise. Quando isso acontece, a melhor alternativa, infelizmente, envolve deixar as coisas como estão para evitar uma piora ainda maior da economia.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Brasil: campeão mundial de insustentabilidade fiscal

No âmbito das finanças públicas, o resultado primário corresponde à diferença entre receitas e despesas, excluindo-se do cômputo as receitas e as despesas com juros. Quando há um superávit, por exemplo, dizemos que o governo conseguiu economizar recursos para pagar os juros que incidem sobre a dívida, e vice-versa.

Entretanto, é possível que, mesmo com a geração de um resultado positivo, o endividamento do governo aumente. Isso porque essa poupança pode não ser suficiente para contrabalançar os efeitos dos juros que incorrem sobre o principal.

Alguns trabalhos acadêmicos apresentam abordagens conceituais sobre a sustentabilidade da política fiscal. Diz-se que um superávit (ou até mesmo déficit) é sustentável se a razão dívida sobre o PIB mantém-se constante. É possível calculá-lo conforme a seguinte definição:

supt = [(rt-gt)/(1+gt)]bt

Onde supt é o superávit sustentável, rt é a taxa real de juros (taxa de juros menos a inflação esperada para os próximos 12 meses); gt é a taxa de crescimento da economia e bt é a razão dívida/PIB.

Os dados disponíveis para o total de 40 países que representam, conforme o site Moneyou, os mercados mais importantes da renda fixa do mundo nos últimos 25 anos, mostram que o Brasil é o campeão mundial de insustentabilidade fiscal. Para manter nosso endividamento constante, devemos gerar um superávit de 3,5% do PIB, bastante abaixo da meta definida pelo governo para esse ano (1,2% do PIB). A distância em relação à segunda colocada (Rússia) é enorme, mesmo com o movimento recente por parte do Banco Central daquele País, que aumentou os juros nominais de 10,5% para 17% ao ano. Também chama a atenção a comparação com a Grécia, cujo endividamento (174,2% do PIB) é muito maior em relação ao Brasil (65,8%). Todavia, como o juro real é bem mais baixo (0,15% ao ano contra 5,41% ao ano, respectivamente), o superávit sustentável é muito menor.

Superávit sustentável - em % do PIB

Como, em 2015, deveremos observar um aumento dos juros reais (continuidade do ciclo de aumento da taxa SELIC) e crescimento econômico muito baixo (com boa possibilidade de queda), é possível afirmar que a dívida pública brasileira continuará aumentando (e muito) ao longo do ano.

Fonte dos dados:

Taxa de juros real – Ranking Moneyou
Crescimento do PIB em 2014: FMI
Dívida bruta como proporção do PIB em 2014: FMI
Nota metodológica: FIRJAN