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quinta-feira, 7 de abril de 2016

Por que é importante gerar superávit nas contas do governo?

O desequilíbrio fiscal é, sem sombra de dúvidas, uma das consequências nefastas da chamada “Nova Matriz Econômica”. Desde o ano passado, o governo federal tem insistido no ajuste fiscal, visando readequar o nível das despesas frente às receitas. Entretanto, os avanços nessa empreitada foram apenas marginais, o que prejudicou ainda mais a estabilidade macroeconômica brasileira. Ao longo da década passada, houve sucesso na geração de poupança para o pagamento dos juros da dívida, ou seja, na obtenção de superávits primários. Essa necessidade pode parecer estranha em uma primeira análise, tendo em vista que quanto maior os gastos da administração pública, maior é o PIB apurado em determinado período.

O objetivo desse artigo é mostrar a importância que o superávit primário apresenta do ponto de vista da macroeconomia.

O gráfico abaixo mostra duas séries históricas em conjunto: o superávit primário e a dívida bruta, ambas como proporção do tamanho da economia brasileira (PIB). 

Superávit primário e dívida bruta do Brasil
(Em % do PIB)


Vamos analisar a evolução de ambas ao longo de três momentos distintos:

Primeiro período: 2002 a 2008

A economia brasileira conseguiu gerar superávits primários bastante elevados, próximos a 4,0%, sem recorrer a nenhum artifício contábil para alcançar esse objetivo. Aqui, convém uma importante observação: esse período foi marcado pela forte expansão da renda (4,0% ao ano, em média), algo que não se verificava desde a década de 70. Quanto maior o crescimento, menor tende a ser a razão dívida/PIB, uma vez que o denominador aumenta. Ainda assim, a escolha de política econômica envolveu a geração de poupança ao invés de elevar os gastos. Isso também possibilitou a redução da dívida.

Segundo período: 2009 a 2013

O crescimento médio diminuiu em relação ao período 2002-2008, ainda que de maneira não tão intensa (3,2% ao ano, em média). Desde então, o governo engajou-se na chamada “contabilidade criativa”, ou seja, em truques para melhorar artificialmente a apuração do resultado fiscal do governo, que ganharam em quantidade e intensidade a posteriori. Ainda assim, a dívida apresentou relativa estabilidade.

Terceiro período: a partir de 2014

O agravamento da crise gerou uma piora na dinâmica da arrecadação de impostos. Como boa parte das despesas do governo é considerada obrigatória, há pouca margem de manobra para modificá-las sem uma ampla reforma, que requer mudanças legais ou, até mesmo, constitucionais. Por conseguinte, as contas do governo passaram do azul para o vermelho e, por consequência, houve forte expansão da dívida.

Quanto menor é a dívida pública, menor é o custo para a captação de novos empréstimos por parte do governo e do setor privado. Além disso, o prazo para pagamento dessas operações tende a ser maior. As condições, portanto, tornam-se mais favoráveis de uma maneira geral, o que gera um círculo virtuoso sobre a atividade produtiva e contribui para a expansão da renda. Esse foi um dos principais motivos que permitiu que o Brasil alcançasse o investment grade pelas agências de risco internacionais no final da década passada. Desde então, a condução da política fiscal piorou notadamente. Esse foi um importante motivo que determinou a perda do selo de bom pagador pelas principais agências de rating soberano do mundo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Ajuste fiscal doloroso – lado das receitas

Depois de ter registrado um déficit primário de 0,6% do PIB em 2014, o Governo se comprometeu a entregar um superávit de 1,2% do PIB em 2015. Portanto, é necessário gerar um esforço cuja magnitude representa 1,8% do PIB. Um desafio e tanto.

A opção pelo ajuste fiscal em curso é necessária, em função dos desmandos da condução da política econômica ao longo dos últimos anos, potencializados a partir de 2011. Essa adequação pode ser feita através de um aumento dos impostos, redução dos gastos ou por uma combinação de ambos (alternativa que está sendo posta em marcha atualmente).

Sobre esse tema, algumas importantes questões devem ser levadas em consideração. Em primeiro lugar, a nova equipe econômica não esperava que o resultado fiscal de 2014 fosse tão ruim, o que implica num esforço maior que o esperado para 2015. Pelo lado das despesas, destaca-se que as mudanças nas regras referentes às concessões de benefícios sociais ainda precisam ser aprovadas pelo Congresso Nacional. Além disso, vale ressaltar que os dispêndios de caráter obrigatório abocanham uma parcela muito maior do Orçamento frente aos discricionários, diminuindo a margem de manobra para possíveis contingenciamentos. O engessamento provocado por essa configuração será tema de um texto no futuro.

Por sua vez, a arrecadação também impõe um desafio relevante. O gráfico abaixo mostra a variação acumulada em 4 trimestres do PIB e da arrecadação de impostos por parte do governo federal. Há uma clara correlação positiva entre ambas as séries. Como se espera que a atividade econômica caia 0,5% em 2015, de acordo com último Boletim FOCUS do Banco Central, a arrecadação deverá registrar um resultado bastante ruim nesse ano, gerando a necessidade de cortes de gastos ainda maiores para atingir o objetivo proposto pelo Governo.

Arrecadação Federal (deflacionada pelo IPCA) e do PIB real
(Variação % acumulada em 4 trimestres)

Todos esses fatores corroboram com a tese de que não haverá o cumprimento da meta fiscal nesse ano.

Fonte: PIB - IBGE. (Série 1620 do SIDRA)
Arrecadação Federal - Ministério da Fazenda / Receita Federal (Consultar no IPEADATA).