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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Uma análise do desempenho dos setores da indústria de transformação do Brasil

O comportamento da produção industrial apresentou dois períodos distintos ao longo dos últimos anos. Entre 2003 e 2008, houve aumento no volume (quantidade de mercadorias produzidas) de 25,3%. Já entre 2009 e 2014, houve queda de 0,63%. Ademais, a análise dos dados desagregados por setores da atividade mostra que, em alguns casos, as trajetórias foram bastante distintas em relação ao total. O objetivo desse post é tentar compreender alguns dos elementos que influenciaram nas suas dinâmicas de crescimento. 


Para ajudar na elucidação do problema levantado anteriormente, optou-se por tentar identificar uma característica fundamental relativa ao processo de transformação de mercadorias: o grau de intensidade da utilização do fator trabalho. O gráfico abaixo mostra o crescimento acumulado entre 2003 e 2014 da produção de 22 categorias da indústria de transformação brasileira (em %) e um índice que procura medir a importância da utilização de mão de obra em relação ao uso de mecanização. Esse foi calculado a partir do inverso da razão do PIB dos subsegmentos, dado pelo valor da transformação industrial (VTI) em 2013, pelo número de trabalhadores com carteira assinada no mesmo ano. Há uma clara correlação negativa entre ambas, sinalizando que uma maior intensidade em capital esteve associada a um melhor desempenho em termos de produção de bens (e vice-versa).

Intensidade da utilização de mão de obra (2013) e crescimento acumulado da produção (2003 - 2014) por setores da indústria de transformação do Brasil
(Em trabalhadores por R$ e %)


A partir desse resultado, temos um indicativo do que ocorreu. Os custos com salários foram justamente os que tiveram os maiores avanços entre os que compõem o Índice de Custos Industriais, compilado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). O incremento das despesas com pessoal foi mais de duas vezes superior em relação ao total, conforme aponta a tabela abaixo.

 Indicador de Custos Industriais da CNI

(Var. % acumulada entre o primeiro semestre de 2007 e mesmo período de 2015)

Convém lembrar que a economia brasileira foi marcada ao longo dos últimos anos pelo forte crescimento dos salários em termos reais, ou seja, já descontando a variação do nível de preços. Isso se deve a atual regra de reajuste do salário mínimo, garantindo que toda a inflação acumulada no ano imediatamente anterior seja reposta, aliada à variação do PIB de dois anos anteriores ao de referência. Essa lei, que começou a vigorar a partir de 2006, deverá se estender, pelo menos, até 2019. Em suma, os setores da indústria de transformação que optem por continuar a usar relativamente mais mão de obra deverão continuar a perder competitividade ao longo dos próximos anos.

Fonte: Produção Industrial (IBGE).
VTI (IBGE).
Número de Empregados (RAIS).
Indicador de Custos Industriais (CNI).

terça-feira, 10 de março de 2015

Impactos econômicos da greve dos caminhoneiros

O objetivo desse post é analisar alguns dos impactos econômicos da greve dos caminhoneiros brasileiros, ocorrida no mês passado.

No dia de hoje foram divulgados os dados referentes ao fluxo de veículos (tanto leves, quanto pesados) nas estradas brasileiras no mês de fevereiro. As informações são da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), em parceria com a Tendências Consultoria. O cálculo da variação anual (mês de referência em comparação com o mesmo período do ano anterior) do fluxo de veículos pesados aponta que, em fevereiro, houve a maior queda nessa base de comparação desde que a pesquisa começou, em 2000: -15,5%. Trata-se de uma consequência direta da greve dos caminhoneiros ocorrida no mês passado, que interrompeu o tráfego em importantes vias brasileiras.

Fluxo de veículos pesados - Var. % anual

É importante notar que essa variável guarda uma valiosa correlação com a produção industrial do Brasil, compilada pelo IBGE. Novamente, mostra-se a variação anual. Outro fator interessante é que as duas séries, especialmente a partir do segundo semestre de 2012, apresentam mudanças cujas magnitudes são relativamente próximas. Nessa base, portanto, é possível esperar uma queda da produção industrial no mês passado que gravite em torno de 15%, com alguma margem para outros efeitos que não são capturados somente por uma única variável.

Fluxo de veículos pesados e produção industrial - Brasil - Var. % anual
 

Na variação em 12 meses, o impacto também é bastante significativo. A série do fluxo de veículos pesados, que vinha caindo 3,0% até janeiro, passa a cair 4,9% fevereiro. Ao que tudo indica, esse movimento também deve ser acompanhado pela produção industrial.

Fluxo de veículos pesados e produção industrial - Brasil - Var. % acumulada em 12 meses

A tendência é de que, em março, a situação retorne para a normalidade, a partir do fim das paralisações. No entanto, o dado muito fraco de fevereiro para o fluxo de veículos pesados sinaliza que o número da produção industrial também será ruim para o mês (temos, aqui, um típico caso de indicadores coincidentes), contribuindo para comprometer o resultado do ano. Esse é mais um elemento que irá prejudicar a indústria em 2015, que vem sofrendo com a conjuntura bastante desfavorável – retirada dos incentivos fiscais e monetários, duplo racionamento (água e energia), aumento de tarifas – e com os já conhecidos problemas estruturais.

Fonte: Produção Industrial - IBGE (Tabela 3653 do SIDRA)
Fluxo de Veículos Pesados - ABCR (Link aqui)

sábado, 7 de fevereiro de 2015

O descasamento entre oferta e demanda no Brasil

O modelo econômico posto em marcha pelo PT, desde sua ascensão ao poder em 2003, apresenta um traço característico evidente: as políticas foram direcionadas para o fortalecimento da demanda, em detrimento da oferta. Uma das principais foi a regra de reajuste do salário mínimo, que garantiu aumento real ao poder de compra da população.

Convém lembrar que esse paradigma econômico só conseguiu ser sustentável (gerando crescimento e inflação sob controle) até meados de 2011 porque todas as condições abaixo contribuíram para esse fim. São elas:

a) Manutenção da condução da política econômica adotada pelo governo FHC, catapultando os investimentos de residentes e não residentes.

b) Boom das commodities, que proporcionou um crescimento significativo através do setor externo (ver texto "Brasil: um País de Commodities").

c) Como conseqüência de b), houve valorização da taxa de câmbio real (real relativamente mais forte em comparação com o dólar), aumentando fortemente o poder de compra da moeda até 2011 e tornando o consumo de importados mais barato.

d) Existência de capacidade ociosa na economia, sobretudo de mão de obra.

e) Grande margem de manobra da política econômica: por exemplo, medidas expansionistas pelo lado monetário (queda da taxa de juros) e fiscal (redução de impostos e aumento dos gastos) foram usadas em 2009 para contrabalançar os efeitos da crise, sem que isso provocasse desajustes do ponto de vista macroeconômico.

f) Forte crescimento econômico mundial.

O governo insistiu na continuidade do modelo após 2011 e os vetores acima se esgotaram. Resultado: economia estagnada e alta inflação (estagflação). No gráfico abaixo, vemos a acentuação do descasamento entre oferta (produção industrial) e demanda (vendas do comércio) após a crise financeira internacional de 2008-09.

Produção industrial e Vendas do Comércio Ampliado do Brasil (ajustadas sazonalmente)
Índice de base fixa: jan/03 = 100


Esse descolamento foi possível graças a um forte aumento das importações, conforme o gráfico abaixo. Entre 2003 e 2014, o volume de importações (que leva em consideração somente a quantidade, e não o preço) cresceu 157,0%. 

Volume de importações do Brasil (Média móvel em 12 meses)
Índice de base fixa: jan/03 = 100


Sustentar o modelo via aumento das importações não é mais possível, dado o elevado déficit das Transações Correntes (ver texto "Qual o motivo do rombo das contas externas?"). A solução para esse problema, portanto, passa pela adoção de medidas que privilegiem o lado da oferta, diminuindo assim o chamado "Custo Brasil".

Fontes: Produção Industrial e Vendas do Comércio (IBGE) - SIDRA (séries de número 3653 e 3417).

Volume de Importação: FUNCEX. Série acessada via IPEADATA.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Pressão de custos sobre a indústria

A crise financeira internacional deflagrou uma situação de paralisia da produção da indústria de transformação brasileira. Desde então, o setor alterna entre movimentos de expansão e contração, mas numa clara tendência horizontal.

Um dos motivos que ajuda a entender esse cenário é o forte aumento dos custos (sobretudo os relacionados à mão de obra). O gráfico abaixo mostra que, enquanto a produtividade da indústria (compreendida pela razão entre a produção e o número de horas trabalhadas) encontra-se estável desde junho de 2008, a folha de pagamento real, ou seja, o conjunto de despesas necessárias para sustentar o quadro de funcionários (já descontando a inflação) cresceu fortemente ao longo do período considerado.

Produtividade (razão entre produção industrial e o número de horas trabalhadas) e folha de pagamento real
(Número-índice: jan/03 = 100, com ajuste sazonal) 


Convém lembrar que não há ineficiência do ponto de vista econômico quando os salários crescem, contanto que acompanhados por ganhos de produtividade. Quando isso não ocorre (caso da indústria nacional), o efeito resultante de uma maior expansão da demanda em comparação com a oferta é, apenas, uma elevação dos preços.

As soluções para minimizar esse problema envolvem a adoção de políticas de ganhos salariais mais realistas, assim como a simplificação e diminuição do ônus no que tange à contratação e demissão de trabalhadores. Outros gargalos, além dos relacionados ao trabalho, precisam ser atacados, como: (i) elevada carga tributária; (ii) complexidade da legislação tributária; (iii) insegurança jurídica; (iv) infraestrutura precária; (v) burocracia; (vi) baixa qualificação da mão de obra; (vii) ausência de acordos comerciais bilaterais, entre outros.

Fontes:
Produção industrial: número-índice: jan/03 =100. Série com ajuste sazonal. Fonte: IBGE.
Horas trabalhadas: número-índice: jan/03 = 100. Série com ajuste sazonal. Fonte: CNI.
Folha de pagamento real: número-índice: jan/03=100. Série com ajuste sazonal. Fonte: IBGE.