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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Envelhecimento da população e Previdência Social: uma bomba relógio

Conforme apontado por esse blog, as transformações demográficas esperadas para o Brasil ao longo dos próximos anos deverão contribuir para tornar a situação da Previdência Social muito mais grave em relação ao que já ocorre hoje. O objetivo desse texto é aprofundar essa discussão, trazendo as projeções mais recentes do IBGE.

A população potencialmente ativa (PPA) é definida pelo grupo de pessoas entre 15 e 64 anos. Esse conjunto, portanto, está apto para realizar atividades laborais e pode contribuir com a Previdência Social. Por sua vez, a casta acima de 65 anos está habilitada para receber os benefícios previstos caso as exigências legais sejam atendidas.

As estimativas populacionais para diferentes categorias etárias da população foram realizadas pela última vez em 2013. O gráfico abaixo mostra a razão entre a PPA e o número de idosos (acima de 65 anos). Dito de outra forma, a divisão entre ambos mostra quantos potenciais contribuintes existem para cada possível beneficiário do sistema. Os dados mostram que, atualmente, a proporção é de 9 para 1. Ao longo dos próximos anos, esse quociente tende a cair rapidamente, devendo alcançar aproximadamente 2 em 2060.

Projeções para a razão entre a população potencialmente ativa e o número de idosos do Brasil
(Em unidades)


É fundamental, portanto, que as regras para a requisição dos benefícios da Previdência Social sejam revistas, evitando a derrocada do sistema.

Fonte: IBGE.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Transformações do mercado de trabalho brasileiro: um simples exercício

A crise econômica tem gerado transformações significativas no mercado de trabalho brasileiro. Em artigo publicado em julho de 2015, constatou-se que a geração de emprego é fortemente correlacionada com o nível de atividade. Já a taxa de desemprego, por sua vez, apresentou comportamento peculiar ao longo dos últimos anos: entre 2011 e 2014, nem mesmo a significativa desaceleração na criação de postos de trabalho foi suficiente para impedir sua queda. No entanto, a partir de 2015, a destruição de vagas se acentuou, repercutindo negativamente sobre a taxa de desocupação.

O objetivo do presente artigo é entender de que forma o mercado de trabalho reage diante de situações de estresse como a que estamos vivendo hoje.

Convém lembrar que a taxa de participação pode ser definida como a razão entre a População Economicamente Ativa (PEA, ou seja, a soma dos empregados e desempregados) e a População em Idade Ativa - cidadãos com 10 anos ou mais, ou seja, que estão aptos para exercer atividades laborais -. A análise da série histórica, com base nos dados da Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, merece duas observações: (1) a taxa de participação alcançou o menor nível para os meses de janeiro e (2) ao longo da maior parte do tempo, a variável manteve-se estável ao redor de 57,0%.

Somente em dois períodos os valores da taxa de participação destoam dessa referência: 2002 e 2015. Em relação ao primeiro, vale lembrar que a economia apresentou forte deterioração, em função dos temores com relação à possibilidade da eleição de Lula. Já em 2015, a economia entra em depressão com forte inflação. Diante desse quadro, aliado também às mudanças nas regras para a obtenção do Seguro Desemprego e à falta de perspectiva de uma retomada, houve forte ajustamento no mercado de trabalho.

O exercício proposto envolve recalcular a taxa de desemprego (definida como a população desocupada em relação à PEA), considerando a situação hipotética de manutenção da taxa de participação em 57,0% ao longo de toda a série histórica. Essa, portanto, seria a taxa de participação de “equilíbrio”, capaz de expressar condições "normais" relativas à participação da população no mercado de trabalho. A diferença entre o número de pessoas representado pelo valor efetivo da PEA e o simulado é utilizada para corrigir o pessoal desempregado. 

Quando a PEA é maior do que o benchmark, ou seja, quando a diferença entre ambas é positiva, caracteriza-se uma situação em que as condições do mercado de trabalho mostraram-se realmente favoráveis, de tal sorte que havia incentivos para o aumento da oferta de mão de obra. Nesse caso, a taxa de desemprego simulada é mais baixa que a efetiva. Se, por outro lado, a diferença entre ambas é negativa, os trabalhadores deixaram de ofertar trabalho, numa sinalização de piora das condições econômicas. Portanto, se fizessem parte da PEA, estariam desempregados, o que elevaria ainda mais a taxa de desemprego. Os resultados estão dispostos no gráfico abaixo:

Taxa de desemprego efetiva e simulada do Brasil (PEA fixa em 57,0%)
(Em % no mês)

Em suma, o movimento de abandono do mercado de trabalho evitou que a taxa de desemprego crescesse ainda mais.  Por exemplo: se a taxa de participação fosse de 57,0% (e não de 54,8% em janeiro passado), o desemprego seria de 11,1%. Essa diferença equivale a, praticamente, um milhão de desempregados a mais.

terça-feira, 10 de março de 2015

Impactos econômicos da greve dos caminhoneiros

O objetivo desse post é analisar alguns dos impactos econômicos da greve dos caminhoneiros brasileiros, ocorrida no mês passado.

No dia de hoje foram divulgados os dados referentes ao fluxo de veículos (tanto leves, quanto pesados) nas estradas brasileiras no mês de fevereiro. As informações são da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), em parceria com a Tendências Consultoria. O cálculo da variação anual (mês de referência em comparação com o mesmo período do ano anterior) do fluxo de veículos pesados aponta que, em fevereiro, houve a maior queda nessa base de comparação desde que a pesquisa começou, em 2000: -15,5%. Trata-se de uma consequência direta da greve dos caminhoneiros ocorrida no mês passado, que interrompeu o tráfego em importantes vias brasileiras.

Fluxo de veículos pesados - Var. % anual

É importante notar que essa variável guarda uma valiosa correlação com a produção industrial do Brasil, compilada pelo IBGE. Novamente, mostra-se a variação anual. Outro fator interessante é que as duas séries, especialmente a partir do segundo semestre de 2012, apresentam mudanças cujas magnitudes são relativamente próximas. Nessa base, portanto, é possível esperar uma queda da produção industrial no mês passado que gravite em torno de 15%, com alguma margem para outros efeitos que não são capturados somente por uma única variável.

Fluxo de veículos pesados e produção industrial - Brasil - Var. % anual
 

Na variação em 12 meses, o impacto também é bastante significativo. A série do fluxo de veículos pesados, que vinha caindo 3,0% até janeiro, passa a cair 4,9% fevereiro. Ao que tudo indica, esse movimento também deve ser acompanhado pela produção industrial.

Fluxo de veículos pesados e produção industrial - Brasil - Var. % acumulada em 12 meses

A tendência é de que, em março, a situação retorne para a normalidade, a partir do fim das paralisações. No entanto, o dado muito fraco de fevereiro para o fluxo de veículos pesados sinaliza que o número da produção industrial também será ruim para o mês (temos, aqui, um típico caso de indicadores coincidentes), contribuindo para comprometer o resultado do ano. Esse é mais um elemento que irá prejudicar a indústria em 2015, que vem sofrendo com a conjuntura bastante desfavorável – retirada dos incentivos fiscais e monetários, duplo racionamento (água e energia), aumento de tarifas – e com os já conhecidos problemas estruturais.

Fonte: Produção Industrial - IBGE (Tabela 3653 do SIDRA)
Fluxo de Veículos Pesados - ABCR (Link aqui)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A relação entre consumo e confiança dos consumidores

O consumo das famílias é o principal componente do PIB do Brasil. Em 2013, conforme os dados do IBGE, esse componente respondeu por 62,6% do total do produto. Compreender os elementos que influenciam os gastos das famílias se torna chave para avaliar a demanda agregada como um todo.

O gráfico abaixo mostra a variação acumulada em 4 trimestres do consumo e da confiança dos consumidores. As duas séries históricas apresentam uma correlação interessante. Aqui, temos mais um caso de um indicador coincidente, da mesma forma que o Índice do Medo do Desemprego (leia aqui). De uma maneira geral, consumidores mais confiantes tendem a desembolsar mais em bens e serviços e vice-versa.

Consumo das Famílias e Confiança dos Consumidores
(Variação % acumulada em 4 trimestres)

No entanto, é possível que mudanças na confiança estejam associadas ao próprio ciclo econômico. Por exemplo: em um período de recessão - momento atual vivido pela economia brasileira -, a própria desaceleração do nível de atividade acarreta numa redução do ritmo de contratações e num menor crescimento dos salários reais, impactando negativamente na confiança dos agentes.

Dito de outra forma, não é possível afirmar qual é a relação causal entre as duas variáveis, simplesmente pelo fato de existir uma correlação entre ambas.

Fonte: Consumo das famílias - IBGE (Tabela 1620 do SIDRA)
Confiança dos consumidores - OCDE (Link de acesso)

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Medo do desemprego é maior entre os brasileiros

A pesquisa "Medo do Desemprego" é uma sondagem de opinião da população brasileira conduzida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Cerca de 2.000 pessoas são entrevistadas em todo Brasil para responder o seguinte questionamento: "Com relação ao desemprego, pensando no(a) Sr.(a.) e nas pessoas de suas família, o(a) Sr.(a.) diria que está com muito, pouco ou não está com medo de ser afetado pelo desemprego?". Com base nas respostas, cria-se um índice com base na frequência relativa de cada uma das possíveis opções de resposta.

O ponto interessante é que a evolução desse indicador no tempo se mostra bastante semelhante em comparação com a própria taxa de desemprego. Aqui, temos um caso de um indicador coincidente: uma variável (ou conjunto de variáveis) que guarda uma correlação contemporânea com alguma outra que seja alvo de investigação. Segue o gráfico abaixo.

Medo do desemprego (eixo da esquerda) e taxa de desemprego (eixo da direita)
(Número-índice:média 2003 = 100 e %)

Chama a atenção o fato de que há, recentemente, um deslocamento entre as duas séries. Pelo Índice de Medo do Desemprego, a taxa de desemprego do último trimestre deveria ser próxima a 6,0%, maior que o percentual oficial divulgado pelo IBGE (4,8%). Um descasamento semelhante entre as duas séries ocorreu entre a partir do terceiro trimestre de 2004, sendo corrigido ao longo de um ano e meio.

Caso essa relação entre as variáveis continue se mantendo, devemos esperar um aumento da desocupação nos próximos meses.

Fonte: Taxa de desemprego (IBGE - Tabela 2176 do SIDRA)
Medo do Desemprego (CNI). Link http://www.portaldaindustria.com.br/cni/publicacoes-e-estatisticas/estatisticas/2015/01/1,41377/medo-do-desemprego-satisfacao-com-a-vida.html