sábado, 27 de agosto de 2016

Você sabia? Todo o trabalhador com recursos no FGTS está perdendo dinheiro

A imagem abaixo mostra que a regra que remunera os depósitos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (3% ao ano mais a Taxa Referencial) é bastante prejudicial para os trabalhadores. A correção, inclusive, é menor do que a inflação registrada pelo IPCA no período entre 2000 e 2015, ou seja, há perdas em termos reais. Se, por um acaso, o valor base de R$ 100 mil fosse reajustado pela Taxa SELIC, o montante seria quase quatro vezes superior ao preceito estabelecido para o FGTS. Confira!


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Qual a relação entre o endividamento das famílias e o PIB?



O crescimento brasileiro ao longo dos últimos anos foi fortemente baseado na demanda. Além da promoção de reajustes do salário mínimo acima da inflação, que elevou o poder de compra dos trabalhadores, o governo despejou crédito nos bancos públicos e provocou mudanças na legislação que viabilizaram, por exemplo, a contratação de crédito consignado. Esse conjunto de elementos ajuda a explicar os motivos pelos quais o endividamento das famílias avançou desde meados da década passada. O objetivo desse artigo é confrontá-lo com o desempenho do nível de atividade.


O gráfico abaixo mostra a evolução de duas séries históricas ao longo do tempo: o IBC-BR – variável usada para “aproximar” o comportamento do PIB – e o estoque de dívida das famílias como percentual da renda acumulada pelas mesmas ao longo dos últimos 12 meses. Em princípio, não se deve esperar nenhuma relação a priori entre ambas: o aumento da geração de riquezas eleva o denominador da razão supracitada, mas também permite que o consumidor tome mais dívidas porque sua capacidade de pagamento melhora, ou seja, expande-se o numerador.

IBC-BR e endividamento das famílias com o Sistema Financeiro Nacional em relação à renda acumulada nos últimos doze meses
(IBC-BR: série com ajuste sazonal jan/05 = 100; endividamento das famílias em %) 
Entretanto, a correlação entre ambos os índices é positiva e bastante forte. Uma das hipóteses possíveis para explicar esse fenômeno diz respeito a aspectos culturais: a sociedade brasileira, de forma geral, é menos “paciente”, ou seja, atribui maior valor para o consumo em detrimento da poupança. Como já sabemos, correlações não permitem dizer nada sobre a causalidade. Do ponto de vista econômico, faz sentido admitir que a atividade econômica interfira na renda e, por conseguinte, no indicador de endividamento. A inversão do sentido da análise também é factível: na atual conjuntura, por exemplo, o alto patamar de obrigações financeiras ajuda a deprimir ainda mais a atividade econômica, dado que as famílias necessitam sanear suas dívidas para voltar a tomar recursos emprestados. É provável, destarte, que se trate de um caso de simultaneidade entre ambas as variáveis.


O comportamento recente dessa relação nos últimos meses mostra que o desafio do governo é considerável. Como o nível de endividamento é relevante, há pouco espaço para o uso desse expediente visando aumentar o PIB. Para que esse cresça ao mesmo tempo em que aquele diminua (ou permaneça estável), torna-se necessário incentivar o lado da oferta da economia.

Fonte: BCB.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Qual a relação entre desemprego e inadimplência?



Conforme já demonstrado em outro artigo, a forte recessão que atinge a economia brasileira causou transformações no mercado de trabalho. O objetivo desse texto é mostrar de que forma o aumento dos desocupados como parcela da população economicamente ativa está relacionado com a falta de capacidade dos consumidores em honrar as dívidas assumidas via contratação de empréstimos.


O gráfico abaixo mostra a dispersão entre dois indicadores: a inadimplência dos consumidores – medida como o percentual do saldo de crédito com atraso superior a 90 dias – e a taxa de desemprego, ambos referentes ao primeiro trimestre de 2016 para todos os estados do Brasil. Além da correlação positiva, vale destacar que das sete Unidades da Federação com a maior taxa de inadimplência, cinco também apresentam as maiores incidências de pessoas que procuram trabalho, mas não conseguem. Os estados com a pior situação encontram-se no Norte e no Nordeste.

Taxa de desemprego e taxa de inadimplência dos consumidores - 1º Trimestre de 2016
(Em %)

Não é possível afirmar qual a relação de causalidade entre as variáveis. Contudo, a justificativa que mais parece fazer sentido do ponto de vista econômico é de que o desemprego causa a inadimplência. A piora daquele provoca queda no fluxo de renda dos trabalhadores, deteriorando a capacidade desses agentes em pagar os compromissos financeiros previamente assumidos. Os efeitos econômicos da inadimplência já foram discutidos nesse texto, e alimentam um círculo vicioso que deprime ainda mais a atividade econômica.



Como existe uma defasagem entre os movimentos do PIB e do mercado de trabalho, e em linha com o que foi visto sobre os indicadores antecedentes do nível de atividade, deveremos observar uma melhora lenta e gradual da taxa de desemprego somente em 2017, gerando reflexos positivos sobre a inadimplência.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Mercado de ações e mercado de trabalho: o que nos dizem os indicadores antecedentes?

O presente artigo dá seguimento à análise de alguns importantes indicadores antecedentes da economia brasileira, capazes de fornecer evidências sobre a trajetória esperada para o nível de atividade no futuro próximoAs variáveis selecionadas nesse texto exprimem a relação entre o mercado de ações e o de trabalho.
No primeiro caso, optou-se pelo valor médio mensal (em pontos) do Ibovespa: carteira teórica composta por alguma das principais ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo. Esses ativos representam a expectativa de lucro futuro das empresas, trazido a valor presente. É importante destacar que as cotações de mercado levam em consideração todo o conjunto de informação disponível pelos agentes econômicos, incluindo os sentimentos a respeito do cenário vindouro.

Para o mercado de trabalho, usou-se Indicador Antecedente de Emprego (IAEmp), calculado pela FGV. De acordo com a metodologia de cálculo, o objetivo do mesmo é antecipar os rumos do emprego no Brasil. Vale ressaltar que ambas as variáveis guardam uma correlação positiva interessante, conforme o gráfico abaixo. Além disso, estão temporalmente alinhadas, dado o caráter antecedente das mesmas.

Ibovespa e Indicador Antecedente de Emprego
(Em pontos)
Não é possível inferir relação de causalidade entre ambas as variáveis, uma vez que há bons argumentos para os dois lados. Por um lado, se o Ibovespa aumenta, a expectativa de lucro das empresas também é maior, o que tende a provocar aumento das contratações de mão de obra no futuro. Por outro, a melhoria nas condições futuras do emprego (fator de produção fundamental no processo produtivo) auxilia na geração de ganhos mais altos das firmas. Portanto, somente testes estatísticos podem nos dar um indicativo sobre a causalidade dessa relação.

Fonte: Ibovespa (Série 7845 do SGS Bacen).

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A economia brasileira chegou ao "fundo do poço"?



A parceria entre a Conference Board e a FGV resultou no desenvolvimento de dois tipos de indicadores para o nível de atividade do Brasil: um coincidente e outro antecedente. O primeiro tenta antever a direção do ciclo econômico nos meses subsequentes, enquanto o segundo está em alinhado – do ponto de vista temporal – com a trajetória do PIB. Vários dos textos deste blog já demonstraram exemplos de ambos os casos, mostrando sua utilidade dentro da análise de conjuntura.


Os relatórios divulgados periodicamente mostram os resultados para os últimos seis meses em relação ao período de referência. Além disso, as publicações ressaltam as influências de cada uma das variáveis que compõem esses índices. De posse dessas informações, o objetivo desse texto é averiguar se existem evidências que permitam afirmar que a economia brasileira atingiu o “fundo do poço”. O gráfico abaixo mostra a evolução do indicador antecedente e do coincidente nos últimos seis meses, assumindo dezembro de 2015 como o valor de referência (100). Enquanto esse registra certa estabilidade, aquele demonstra crescimento.

Indicador coincidente e antecedente do PIB do Brasil
(% de variação em relação à base: dez/15)

Para avançarmos nessa análise, devemos estudar a evolução das influências desagregadas do indicador antecedente a cada mês, conforme a tabela abaixo.

Principais influências mensais das variáveis do indicador antecedente do PIB do Brasil
(Em pontos percentuais)



A leitura dos dados mostra três destaques principais. O primeiro deles fica por conta da elevação dos índices de expectativa com relação aos próximos seis meses. A confiança aumentou consistentemente a partir de abril, quando o processo de impeachment da presidente Dilma ganhou força no Congresso Nacional. Conforme visto em outras oportunidades, famílias mais otimistas tendem a gastar mais e são mais suscetíveis a demandar crédito. Por sua vez, empresários da indústria realizam mais investimentos produtivos, que visam ampliar a capacidade produtiva da economia. Ademais, os donos dos estabelecimentos dos serviços tendem a expandir seus empreendimentos.


Outro fator positivo diz respeito à elevação dos termos de troca. Isso significa que a razão entre os preços de exportação e os de importação das mercadorias aumentou, ou seja, a receita obtida com a venda dos bens nacionais permite adquirir mais produtos estrangeiros em valor. A explicação desse fenômeno passa pela majoração dos preços dos produtos básicos (commodities), que representam 45,6% da pauta de exportação do BR. Ao longo do primeiro semestre, a cotação do petróleo e do minério de ferro, por exemplo, cresceram aproximadamente 30% na comparação com o mesmo período de 2015.


Por fim, a Bolsa de Valores também registrou valorização substancial nos últimos seis meses, fruto, entre outras coisas, da melhora na percepção sobre a condução da política econômica no futuro. Isso pode ser atribuído à expectativa de redução dos intervencionismos que fizeram com que as empresas estatais sofressem ingerências, resultando na perda de boa parte do seu valor de mercado.

Em suma, existem evidências que nos permitem afirmar que chegamos ao “fundo do poço”. No entanto, o Brasil ainda precisa percorrer um longo caminho para recuperar todas as perdas incorridas ao longo de 2015 e 2016.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Por que as desonerações fiscais não alavancaram o crescimento econômico do Brasil?



O primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff ficou marcado pelo aumento do intervencionismo na economia em comparação com seu predecessor. Entre 2011 e 2014, o governo adotou várias medidas para tentar estimular o crescimento econômico, sobretudo com foco na indústria. Entre as principais medidas adotadas estavam a desoneração da folha de pagamentos, a redução do IPI para a chamada “linha branca”, a diminuição para zero da alíquota da CIDE – Combustível, a desoneração da cesta básica, entre outras. 


Além dos resultados pífios, o desequilíbrio fiscal se aprofundou, especialmente a partir da significativa queda de arrecadação verificada desde o ano passado. O gráfico abaixo mostra a renúncia fiscal do governo ao longo dos últimos anos como proporção do PIB, de acordo com a Receita Federal.  No período marcado pela primeira administração de Dilma Rousseff, essa variável registrou avanço intenso.



Estimativa da renúncia fiscal
(Participação % em relação ao PIB do respectivo ano)


O objetivo desse artigo é mostrar porque os gastos não surtiram o efeito desejado pelo governo em termos de aumento do crescimento. No entendimento deste autor, as razões são:


1º) Verticalidade: as desonerações de impostos não abrangiam a totalidade da oferta, mas somente alguns setores, escolhidos a partir de critérios escusos. A boa teoria econômica afirma que as políticas econômicas devem ser horizontais, ou seja, contemplar todos os segmentos. Caso contrário, o vetor resultante gera um viés de escolha que acarreta em perda de eficiência.


2º) Temporalidade: as medidas de caráter mais duradouro vigorariam, originalmente, até, no máximo, 4 anos. Trata-se de um horizonte de tempo muito restrito no tocante aos investimentos produtivos que necessitam de tempo para a sua maturação, e que não é capaz de interferir na decisão de viabilizar empreendimentos com essas características.


3º) Constante mudança nas regras do jogo: o governo anunciou várias alterações nas políticas ao longo do tempo, como a magnitude das alíquotas dos impostos, os setores contemplados nas desonerações, o prazo de validade, entre outras. Essa volatilidade gera incerteza nos empresários, que acabam postergando suas inversões.


4º) Exigência de conteúdo nacional: o programa “INOVAR-AUTO” passou a exigir a participação de 65% de conteúdo nacional e o cumprimento de um mínimo de etapas do processo produtivo de fabricação de automóveis no Brasil. Se as fábricas não atingem esses requisitos, estão sujeitas à incidência de uma alíquota de 30 pontos percentuais de IPI. Convém lembrar que as regras de conteúdo local por parte da Petrobras já estão vigentes desde os contratos firmados a partir de 2003. Esse conjunto de obrigatoriedades atua para elevar os custos de produção e, dessa forma, impede a majoração da eficiência.


5º) “Custo Brasil”: o governo tentou, sem sucesso, pôr em marcha um programa de concessões/privatizações em diversos modais de transporte. No entanto, houve grandes equívocos no formato delimitado dos leilões, como, por exemplo, o estabelecimento de um patamar máximo para as taxas de retorno. Isso acabou retirando toda a atratividade dos projetos, gerando baixíssima procura por parte do setor privado. Além disso, o poder público negligenciou questões relacionadas ao chamado “ambiente de negócios”, como a burocracia, os elevados impostos, a complexidade tributária, a insegurança jurídica, os elevados custos trabalhistas e previdenciários, entre outros fatores.


Em suma, as desonerações fiscais foram muito mal executadas ao longo dos últimos anos, e não atacaram as reais causas dos problemas que atravancam o lado da produção.

Fonte: Receita Federal.