terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O que esperar da economia dos Estados Unidos em 2017

As estimativas mais recentes do FMI apontam que a economia americana crescerá 2,2% em 2017. Apesar de mais alta em relação a 2016 (1,6%), a taxa projetada para este ano está bastante próxima da média observada entre 2011 e 2016: 2,0%. O objetivo do presente texto é analisar as perspectivas para o nível de atividade dos Estados Unidos em 2017, através da investigação de cada um dos componentes do PIB pela ótica da demanda.
O consumo das famílias deverá continuar crescendo de maneira sólida, em linha com as condições mais apertadas do mercado de trabalho: quanto maior a disputa por mão de obra escassa, maior a pressão por ganhos salariais acima da inflação, o que naturalmente eleva o poder de compra dos rendimentos. O último dado da taxa de desemprego, referente ao mês de janeiro, acusou 4,8%, segundo o Bureau of Labor Statistics (BLS). Esse percentual da População Economicamente Ativa (PEA) que procurou por algum tipo de ocupação e não obteve sucesso é praticamente igual à taxa natural (4,7%, de acordo com as estimativas do Congressional Budget Office). A taxa natural de desemprego pode ser definida como a que equilibra a economia, ou seja, incapaz de gerar pressões (inflacionárias ou deflacionárias) sobre o nível de preços.
Por sua vez, a tendência é de que os investimentos tenham um desempenho melhor em 2017, ao contrário dos últimos dois anos: entre o segundo trimestre de 2015 e o terceiro trimestre de 2016, a formação bruta de capital fixo subtraiu 1,26 ponto percentual do crescimento do PIB americano. Parte da explicação reside na queda dos investimentos em mineração e em poços de petróleo, cuja dinâmica acompanha a cotação internacional das commodities. Ou seja, quanto maior o preço dessas mercadorias, maior tende a ser a propensão dos empresários para investir, visando a obtenção de ganhos de receita para cada unidade vendida. Como o preço das commodities já sofreu ganhos significativos ao longo dos últimos meses, a tendência é de que os dispêndios visando o aumento da capacidade produtiva sejam mais altos em 2017. O barril de petróleo, por exemplo, sofreu valorização desde que a OPEP anunciou, ainda em 2016, corte na produção do cartel. Diante da redução da oferta, a cotação se eleva.
Já os gastos do governo não devem sofrer grande alteração. Isso porque o plano econômico de Trump, que envolve, entre outras coisas, o aumento dos gastos com infraestrutura, depende da aprovação do Congresso. É provável, portanto, que poucas ações sejam aprovadas antes do ano fiscal de 2018 (que se inicia em outubro de 2017). É necessário lembrar, ainda, que o início das obras leva algum tempo, até que todas as permissões no âmbito burocrático sejam aprovadas.
Já o setor externo – diferença entre exportações e importações – deverá contribuir para manter o crescimento inalterado, ou até mesmo reduzi-lo. Isso porque o Dólar está bastante valorizado em comparação com as principais moedas do mundo, o que incentiva as importações e desincentiva as exportações. O Dollar Index, em sua medida “ampla”, segue no maior patamar da série histórica desde 2002, e não existe expectativa de reversão dessa tendência, pelo menos de curto prazo. Isso pode ser explicado pela crença do mercado de que o plano econômico do presidente surtirá efeito. Caso isso aconteça, a inflação tende a ser pressionada, o que naturalmente demandaria juros mais altos. Ademais, a demanda externa tende a manter-se arrefecida, sobretudo porque o PIB mundial não deverá acelerar, de maneira substancial, em 2017.
Em suma, o mercado doméstico continuará sendo o principal motor da economia americana e o crescimento convergirá para a média dos últimos anos.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Considerações sobre a hipótese neofisheriana

Os debates envolvendo a hipótese neofisheriana ganharam espaço nos principais veículos de comunicação das últimas semanas. O objetivo desse texto não é explicar seu significado nem suas principais implicações, mas trazer duas observações que, no meu entendimento, são importantes.

1º) O nome do artigo de John Cochrane é "Michelson-Morley, Occam and Fisher: The Radical Implications of Stable Inflation at Near-Zero Interest Rates". Somente a análise do título já deixa claro que o escopo do trabalho se restringe a casos muito específicos de países notadamente marcados por políticas monetárias bastante acomodatícias, e que também experimentaram, ao longo dos últimos anos, inflação próxima a zero.

A realidade brasileira, no entanto, é completamente diferente do objeto de análise investigado por Cochrane. Nossos juros, por exemplo, estão bem distantes de zero: em termos nominais, inclusive, estamos em terceiro lugar no ranking mundial, somente atrás da Argentina e da Venezuela. Sequer, também, temos inflação baixa e estável (muito pelo contrário!).

As evidências empíricas para o Brasil vão ao encontro da teoria predominante, ou seja, uma política monetária contracionista (elevação dos juros) atua para tornar a atividade econômica menos dinâmica e vice-versa. Basta lembrar do que aconteceu a partir de agosto de 2011, quando o Banco Central iniciou um ciclo de redução da SELIC sem qualquer fundamento, alegando pretensos efeitos recessivos oriundos da "crise internacional" sobre o nível de atividade. Posteriormente, para conter a inflação, a autoridade monetária necessitou aumentar a SELIC.

Qualquer tentativa de transportar eventuais lições do artigo de Cochrane para o caso brasileiro constitui pura desonestidade intelectual.

2º) A grande inquietação do autor diz respeito às maciças injeções de liquidez, aliadas à manutenção de juros extremamente baixos (negativos, em alguns casos), que não redundaram em aumento da inflação nas nações desenvolvidas. Pela teoria econômica convencional, quanto maior a oferta de um bem ou serviço, menor o seu preço. No caso da moeda, quanto mais moeda existe em circulação, menor é o poder de compra, ou seja, maior é a inflação.

Acontece que políticas monetárias não-convencionais, como o Quantitative Easing, associadas a juros extremamente baixos, constituem algo muito recente dentro da histórica econômica mundial. Esse arcabouço foi posto em prática após a eclosão da crise financeira internacional de 2007/2008, primeiramente nos Estados Unidos. Desde então, alguns países e a Zona do Euro adotaram procedimentos cujo o objetivo era o mesmo, ainda que com algumas diferenças do ponto de vista operacional: diminuir os juros na parte longa da curva. Vale lembrar que algo semelhante foi executado no Japão na década de 90, mas nada que se compare a magnitude dos programas de hoje em dia.

Como é possível inferir a existência de uma relação positiva entre juros e inflação no longo prazo se nem dez anos se passaram? A validação empírica de qualquer relação entre variáveis em um horizonte mais amplo carece de um número bem maior de observações. É factível, portanto, que todo esse conjunto de políticas resulte, sim, em mais inflação nos países desenvolvidos, porém somente no longo prazo. A conferir.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Série "O que esperar para 2017": PIB


A mediana das projeções para o PIB do último Relatório FOCUS, do Banco Central, aponta que a economia brasileira crescerá 0,5% em relação a 2016. Esse valor, no entanto, recompõe apenas uma parcela muito pequena das perdas incorridas ao longo dos últimos dois anos, de 7,2% (considerando a estimativa de retração de 3,5% em 2016). Alguns importantes vetores devem favorecer a retomada conjuntural, porém ainda lenta, do nível de atividade. Outros, todavia, continuam bastante estrangulados, conforme as justificativas abaixo.

Vetores favoráveis:

1º) Inflação mais baixa: evita a deterioração mais significativa do poder de compra dos salários, com impactos positivos sobre a demanda agregada.

2º) Queda da taxa SELIC: proporciona melhora da situação das empresas, principalmente aquelas cujo nível de endividamento é mais alto. A situação financeira das indústrias consultadas pela Sondagem Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), é crítica: 42,3 pontos no último trimestre de 2016, sendo que valores abaixo de 50 indicam insatisfação. Ademais, a redução da taxa básica de juros diminui o custo para os financiamentos destinados ao consumo e aos investimentos, além de trazer alívio para as contas públicas: cada ponto percentual de redução da SELIC provoca uma economia de, em média, R$ 28 bilhões ao erário.

3º) Preços das commodities mais altos: o preço do barril de petróleo já apresentou elevação ao longo das últimas semanas, em função do anúncio da OPEP, realizado no final do ano passado, que determinou a redução do total ofertado pelo conjunto de países que formam o cartel. A diminuição dos riscos relacionados à desaceleração mais intensa da China em 2017, com resultados do Índice de Gerentes de Compras (PMI) melhores do que esperado, também ajuda no suporte aos preços. Vale lembrar que os produtos básicos representam uma importante fatia da pauta de exportação brasileira, de aproximadamente 50%.

4º) Estoques ajustados: o nível dos estoques efetivos em relação ao planejado da indústria brasileira, de acordo com a Sondagem Industrial da CNI, está em 48,6 pontos, ou seja, abaixo dos 50 pontos, indicando menos estoques frente ao projetado pelas firmas. Esse é um dos valores mais baixos da série histórica, iniciada em 2010. Nessas situações, qualquer impulso oriundo da demanda deverá repercutir positivamente sobre a produção.

Vetores desfavoráveis:

1º) Efeito carregamento desfavorável: o efeito estatístico para 2017 é bastante desfavorável, uma vez que a trajetória recente do PIB ainda apresenta forte deterioração. Nesse exercício, estimamos qual seria a variação do PIB em 2017 se a taxa de crescimento ao longo dos 4 trimestres fosse zero (nos dados com ajuste sazonal). Portanto, se houver estabilidade no nível da série ao longo desse período, a variação em relação a 2016 será de -0,7%. Para que o Brasil cresça 0,5% em 2017, o crescimento médio a cada trimestre (em relação ao período imediatamente anterior) deverá ser de 0,5%.

2º) Margem nula para estimular a economia através da política fiscal: o desequilíbrio das contas públicas deverá permanecer em 2017. A meta com relação ao déficit no conceito primário, anunciado pelo governo, é de R$ 139 bilhões. Se incluirmos as empresas estatais e estados e municípios, o rombo esperado é ainda maior: R$ 143,1 bilhões. Por um lado, o governo não deverá ampliar as desonerações fiscais e reduzir outros impostos. Por outro, a vigência da PEC do Teto impede que o tamanho dos gastos primários federais supere o IPCA acumulado ao longo de 2016, de 6,28%.

3º) Mercado de trabalho deteriorado: as demissões no mercado de trabalho formal deverão continuar em 2017, ainda que em ritmo bem menos intenso em comparação com 2015 e 2016. Além da destruição de postos de trabalho gerar impactos negativos sobre a taxa de desemprego, a própria situação econômica desfavorável aumenta a pressão dos que compõem a População Não Economicamente Ativa (PNEA) em fazer parte da força de trabalho (PEA). Contudo, como a retomada ainda deverá ser lenta, esse grupo deverá aumentar ainda mais o contingente dos que são considerados desempregados. Também é importante frisar a existência de uma defasagem entre o PIB e os movimentos do mercado de trabalho, em decorrência dos elevados custos de contratação e demissão de funcionários, além daqueles envolvidos com o treinamento da mão de obra recém contratada.

4º) Demanda externa sem perspectivas positivas: o ritmo de crescimento das importações mundiais deverá continuar lento em 2017. As mudanças no cenário dos acordos comerciais causados pela dissolução do Acordo do Transpacífico (TPP) e da saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) podem abrir espaço para o aumento das exportações de setores onde há vantagem competitiva no Brasil, sobretudo os relacionados à agroindústria. No entanto, ainda que isso ocorra, o efeito resultante sobre o PIB não será significativo. Além disso, a possibilidade de um acordo de livre comércio entre MERCOSUL e União Europeia sofreu um duro golpe com o Brexit, de tal modo que a continuidade dos trâmites entre ambos os blocos deverá sofrer atraso considerável.

Em suma, a retomada da economia brasileira será muito lenta e gradual.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A dieta socialista de Nicolás Maduro

Segundo reportagem do site NPR, aproximadamente 80% dos venezuelanos já perdeu peso por conta do agravamento da crise que atinge o país. É a chamada "dieta do Maduro".

Quem sofre no curto prazo é a parcela da população mais próxima da miséria. Entretanto, no médio e longo prazos, essa conta chegará para muitos outros cidadãos, em função da queda do número de nutrientes ingeridos a cada refeição. Não é exagero, portanto, afirmarmos que se trata de uma política assassina.

A existência dos supermercados estatais, com preços tabelados pelo governo, favorece ainda mais a existência dos mercados negros. Somente quem espera ao longo de alguns dias nesses estabelecimentos tem acesso às mercadorias. O custo da defasagem, no entanto, é pago pela sociedade como um todo por causa da escalada da inflação, que atingiu 830% em 2016, de acordo com o Banco Central da Venezuela. O PIB, somente no ano passado, caiu 23%.

Aliás, como se sabe, a escalada persistente do nível geral de preços é justamente mais prejudicial aos pobres; essa casta, por definição, destina a maior parte (ou integralidade) de seus recursos em consumo.

Enquanto isso, militares do país traficam comida e outros artigos básicos. Por um lado, o governo paga mais do que o dobro da cotação internacional para que um navio descarregue milho no país, por exemplo. Por outro, recebe pagamentos de propina que atingem, em alguns casos, milhões de dólares.
Tudo isso sem contar a perseguição realizada contra os opositores, órgãos de imprensa e empresários. Aqueles que tiveram a oportunidade já deram o melhor presente para si: fugir do país. Infelizmente, os mais necessitados não podem recorrer a esse expediente.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Série "perspectivas para 2017": taxa de câmbio

AVISO IMPORTANTE: qualquer análise honesta sobre a taxa de câmbio envolve a discussão dos fatores que podem determinar a tendência futura da cotação. Quem centra esforços na defesa intransigente de suas projeções para essa variável só têm um único objetivo: enganar seu interlocutor.

Após essa ressalva, vamos aos fatores que, no nosso entendimento, são relevantes para a trajetória do objeto de nossa análise.

DESVALORIZAÇÃO:

A evolução do cenário inflacionário abriu espaço para que o ciclo de redução da taxa de juros por parte do COPOM seja mais intenso do que o previsto anteriormente. Tudo mais constante, o Brasil se torna relativamente menos atrativo ao capital financeiro internacional. Como resultado, a queda da demanda por Reais causa uma depreciação da taxa de câmbio.

Entretanto, não podemos ver essa questão de maneira isolada. Aqui, a variável-chave é o diferencial esperado entre os juros nacionais e dos demais países. Devemos, portanto, permanecer vigilantes no que tange aos desdobramentos da política monetária das principais nações do mundo. No caso dos Estados Unidos, o mercado e os membros do FOMC com poder de decisão sobre as fed funds já esperam três (ao invés de dois) aumentos de juros ao longo de 2017, em função da expectativa com relação ao plano de estímulo de Donald Trump para alavancar o nível de atividade. O Dólar, portanto, se fortaleceria não somente pelo lado monetário/financeiro, mas também pela atração de recursos produtivos que visam se beneficiar do ambiente mais propício para a obtenção de lucros. Por conseguinte, o incremento da demanda agregada pressionaria a inflação.

No front interno, o Dólar pode se desvalorizar muito caso a política contamine ainda mais a economia. A “Operação Lava-Jato” e a ação movida junto ao TSE para cassar a chapa Dilma-Temer pelo recebimento de caixa-dois na campanha presidencial de 2014 são fontes de grande incerteza que podem pressionar a cotação. A deterioração do lado fiscal também pode contribuir para a desvalorização, diante da aprovação de pautas que pressionam os gastos públicos.

VALORIZAÇÃO:

Caso as medidas de Donald Trump não surtam o efeito previsto, o FED deverá manter os juros baixos por mais tempo, visando dar suporte ao crescimento. Sob essa última hipótese, o diferencial de juros, tudo mais constante, seguiria ainda bastante alto entre o Brasil e o resto do mundo.

É importante lembrar que na maior parte dos países desenvolvidos a política monetária é inversa ao dos EUA. A Zona do Euro, em breve, deverá anunciar medidas de expansão da liquidez. Por sua vez, o Japão, muito provavelmente, seguirá ampliando sua base monetária. Diante de taxas de juros (de curto e de longo prazo) cada vez mais baixas, os poupadores acabam buscando opções mais rentáveis de investimento em outros locais, como o Brasil.

O crescimento mais forte da China e o aumento da demanda por commodities favorecem a moeda brasileira. Em situações como essa, onde a cotação dessas mercadorias é pressionada, a receita em dólares para cada unidade exportada é maior. Em função de sua relevância na pauta exportadora brasileira, o aumento da oferta de Dólares acaba diminuindo a cotação.

A taxa de câmbio também pode apresentar uma valorização mais expressiva se o governo consiga aprovar uma reforma da Previdência satisfatória, além de avançar na agenda microeconômica para reduzir os custos de produção das empresas.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE:

Ao longo de 2016, o Banco Central interveio no mercado de câmbio quando a taxa de câmbio testava limites inferiores a R$ 3,15 e superiores a R$ 3,45. No primeiro caso, a autoridade monetária parece não desejar que o ajuste da economia brasileira através do setor externo seja prejudicado: quanto mais valorizada a cotação, maior o incentivo para as importações e o desincentivo para as exportações. No segundo, o BC preocupa-se com o efeito da desvalorização da taxa de câmbio sobre os índices de inflação (efeito pass-through).

CONCLUSÃO:

A complexidade do cenário econômico no âmbito nacional e internacional permite apenas a realização do exercício acima para especular o futuro da taxa de câmbio.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Série "Perspectivas para 2017": o que esperar da inflação no Brasil?

Prezados amigos,

Não há assunto mais adequado para começar o ano do que as perspectivas para a economia brasileira e mundial em 2017. O texto abaixo, que versa sobre as expectativas com relação à inflação no Brasil, é o primeiro de uma série. Acompanhe e tire suas dúvidas conosco!

INFLAÇÃO NO BRASIL: EVOLUÇÃO EM 2016 E PERSPECTIVAS PARA 2017

Após encerrar 2015 em 10,67%, o IPCA, índice que serve para balizar o sistema de Metas para a Inflação do Brasil, deverá encerrar 2016 abaixo de 6,5%, ou seja, dentro do intervalo de tolerância estipulado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
Entre os fatores determinantes para que o nível geral de preços crescesse de maneira mais lenta no ano passado em comparação com 2015 estão:

1) Fim do processo de recomposição dos preços dos produtos monitorados:

Ao longo de 2013 e de 2014, o governo impôs uma série de controles artificiais de preços para tentar segurar a inflação, o que incluiu as tarifas de transporte público, energia elétrica, combustíveis, entre outros. A medida foi necessária porque a defasagem entre o preço de venda e os custos de produção impôs severos desequilíbrios financeiros às empresas prestadoras desse tipo de serviço. Caso os preços dos produtos com algum grau de controle por parte do estado não fossem reajustados, as firmas correriam o sério risco de encerrar suas atividades, acarretando prejuízos do ponto de vista social.

2) Fim do processo de realinhamento da taxa de câmbio:

A taxa de câmbio apresentou valorização de de 16,5% ao longo de 2016, fruto do processo de impeachment no Brasil e da redução da taxa de juros em escala global. Quanto mais o Real se valoriza, menor é o custo de cada unidade importada, o que gera uma inflação mais baixa.

3) Recessão econômica:

O PIB do Brasil deverá recuar 3,5% em 2016. Quanto mais a demanda encolhe, menos a inflação tende a crescer. Em situações como essa, é natural que as firmas reduzam seus preços para evitar que a procura por suas mercadorias caia muito.

4) Fim do choque de preços sobre os alimentos:

Devido à existência de problemas climáticos, os preços dos alimentos cresceram de maneira intensa ao longo de boa parte de 2016, gerando impacto relevante por causa do grande peso desse grupo na composição do IPCA (aproximadamente 20% do total). Entretanto, ao longo dos últimos meses, a evolução desse componente foi bem mais comportada.

5) Descompressão dos preços dos serviços:

Os preços dos serviços desaceleram ao longo dos últimos meses de 2016 em resposta ao desalinhamento existente entre oferta e demanda no mercado de trabalho brasileiro provocado pela crise. Conforme já demonstrado nesse blog, existe uma relação negativa entre a taxa de desemprego e a inflação dos serviços.

Em 2017, o IPCA deverá seguir desacelerando. Os motivos que sustentam essa hipótese são:

1) Limite para a expansão dos gastos do governo:

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 55 estabelece um limite para o crescimento dos gastos primários da União. O avanço desses dispêndios está limitado à inflação (medida pelo IPCA) registrada no ano anterior. Considerando que o IPCA deverá fechar próximo a 6,5% em 2016 e próximo a 4,5% (de acordo com a projeção do Banco Central) em 2017, os dispêndios deverão ter incremento real de, aproximadamente, 2,0%. Esse valor é bem mais baixo do que o registrado na média entre 1999-2015, de 6,0%.

2) Baixo crescimento projetado da economia brasileira e permanência de um quadro de excesso de capacidade ociosa:

As projeções do Relatório FOCUS apontam para crescimento de apenas 0,5% em 2017. O excesso de capacidade ociosa (maquinário instalado nas empresas e mão de obra), aliado ao baixo crescimento da demanda agregada, contribuem para manter a inflação sob controle.

3) Taxa de desemprego bem acima da taxa natural, definida como aquela que não provoca pressões inflacionárias:

Conforme já demonstrado por esse blog, existe uma defasagem entre o PIB e o mercado de trabalho. Ou seja, somente após alguns trimestres de crescimento econômico é que deveremos observar uma melhora na geração de emprego e, consequentemente, da taxa de desocupação. Diante desse quadro, a inflação de serviços deverá seguir crescendo menos do que a média histórica recente.

4) Ganho de credibilidade da autoridade monetária:

A troca dos integrantes do COPOM em 2016 por membros de reconhecida capacidade junto ao mercado e a melhora na comunicação dos seus objetivos facilitaram a "ancoragem" das expectativas.

O balanço de riscos para a inflação é positivo em 2017, levando em consideração os fatores apontados. A tendência, portanto, é de que o IPCA encerre o presente ano próximo do centro da meta.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Risco moral e a renegociação da dívida dos estados

A renegociação da dívida dos estados com a União é um dos principais destaques do noticiário econômico. As discussões em torno desse tema estão centralizadas nas contrapartidas exigidas pelo governo federal para que as Unidades da Federação elegíveis façam parte do chamado "Programa de Recuperação Fiscal". 

Recentemente a Câmara revogou proposta aprovada pelo Senado que determinava o cumprimento de uma série de exigências por parte dos estados, como a venda de ativos, privatizações e congelamento de salários em troca da carência de 3 anos do pagamento dos débitos junto à União. Entretanto, o presidente Michel Temer vetou parcialmente o texto, e deverá enviar nova proposta para a apreciação do Legislativo em breve.

Se a União detém aproximadamente dois terços do chamado "bolo tributário", por que não ajudar os estados que atravessam grandes dificuldades em função da crise e que, notadamente, tem menor margem de manobra para adotar medidas que favoreçam a retomada econômica? Somente ao governo federal compete, por exemplo, realizar política monetária, estabelecendo a taxa básica de juros da economia (SELIC), a taxa de redesconto e o compulsório.

Esse problema pode ser interpretado à luz do chamado "risco moral", definido no âmbito da Ciência Econômica como a indução de um comportamento indesejado dos agentes econômicos diante de uma estrutura de incentivos perversa. A análise dos episódios anteriores de auxílio financeiro aos estados é elucidativa ao mostrar que a falta de amarras serviu apenas para postergar o ajuste necessário. Ao longo do primeiro mandato da presidente Dilma, por exemplo, o Ministério da Fazenda determinou o aumento do limite de endividamento dos estados, possibilitando a contratação de novas operações de crédito sem ferir os limites previamente estabelecidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Todavia, essa folga não foi utilizada para sanear as finanças e melhorar seus indicadores de sustentabilidade.

As contrapartidas exigidas pela União encontram severas resistências porque mexem com os interesses de grupos de pressão organizados. No entanto, é importante lembrar que o conjunto de ações:

a) Impede que o problema (já bastante grave) se torne ainda pior, o que demandaria medidas ainda mais drásticas no futuro;

b) Evita que a folga no fluxo de caixa não seja direcionada para a contratação de gastos permanentes, ou seja, que contribuem para piorar ainda mais a qualidade do gasto público.

Caso o projeto final dispense os estados de executar ajustes, muito provavelmente nenhum fará por conta própria, dado o efeito sobre a popularidade dos governantes e, consequentemente, sobre o seu potencial de reeleição.

http://infogr.am/3196d4cc-f296-4452-9f0c-b2e55f3aa835

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Notas e perspectivas sobre a política monetária internacional

A evolução do cenário internacional impôs grandes desafios aos investidores de todo o planeta ao longo dos últimos anos. Desde a crise financeira de 2007/2008, inúmeros países lançaram mão de políticas monetárias cujo expansionismo não encontra precedentes. A redução das taxas de juros para mínimas históricas e as maciças injeções de liquidez, sobretudo nas nações desenvolvidas, causaram a reprecificação dos preços dos ativos em escala global. Diante desse quadro, os poupadores aumentaram seu apetite pelo risco, buscando retornos mais altos em outros mercados que, até então, não eram alvo dos holofotes.

Várias janelas de oportunidades surgiram desde então, propiciando ganhos consistentes em diversas modalidades de investimento. No entanto, a complexidade do cenário geopolítico e econômico diante dos acontecimentos recentes requer atenção e monitoramento constante. Nos Estados Unidos, por exemplo, o ciclo de aperto da política monetária é uma realidade, mas sua intensidade ainda suscita grandes questionamentos. As projeções de mercado, de acordo com o CME Group, foram sistematicamente revisadas para baixo no passado recente: em setembro de 2013, as fed funds projetadas 3 anos à frente eram de 2,0% ao ano. Em setembro de 2016, enquanto a taxa efetiva era de 0,25% a.a., a esperada para 2019 atingia, apenas, 1,0% ao ano.

As perspectivas mudaram desde a eleição de Donald Trump, gerando aumento dos rendimentos dos títulos da dívida soberana de 10 anos dos EUA em 0,8 ponto percentual. Esse movimento pode ser interpretado pela crença dos investidores de que o plano do presidente eleito para alavancar o crescimento econômico americano seja bem-sucedido, o que naturalmente pressiona a inflação e, consequentemente, os juros.

Nos demais regiões do mundo desenvolvido, a tendência é de que o pé siga no acelerador. A elevada incerteza, as dificuldades estruturais para a geração de crescimento sustentado e a necessidade de distensionar o mercado de crédito devem gerar novas medidas de expansão da liquidez, principalmente na Zona do Euro e no Japão. Portanto, de uma maneira geral, o mundo deverá seguir dominado pela farta liquidez, mas novos desdobramentos, sobretudo no âmbito político, podem alterar esse quadro.

domingo, 27 de novembro de 2016

Objetivos contraditórios: estimular a economia ou conter a inflação?

O Conselho Monetário Nacional, formado pelo presidente formado pelo ministro da Fazenda, ministro do Planejamento e o Presidente do Banco Central do Brasil, determinou recentemente o aumento dos limites para o financiamento de imóveis via FGTS.

Essa política tem efeitos expansionistas diretos sobre dois importantes setores - imobiliário e construção civil -, além de outros impactos indiretos sobre a cadeia. Analisando somente o lado real da economia, a medida faz sentido, ainda mais no atual contexto de forte recessão pelo qual atravessamos.

No entanto, é importante lembrar que um dos principais objetivos do Banco Central, dentro do sistema de Metas para a Inflação, é assegurar a estabilidade do poder de compra da moeda. Ao elevar o teto para os financiamentos imobiliários através do FGTS, a demanda tende a aumentar, o que gera pressões sobre o nível geral de preços. Eventuais ajustamentos promovidos pelo ajuste da oferta são lentos, algo especialmente válido para os dois segmentos em questão.

A falta de coordenação entre as políticas foi um problema recorrente ao longo dos últimos anos, sobretudo na Administração Rousseff. Não serviu para gerar crescimento nem contribuiu para segurar a inflação. 

Os objetivos de política econômica, portanto, precisam ser consistentes.

http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2016/11/governo-aumenta-limite-para-financiamento-de-imoveis-pelo-fgts

Mais milionários em tempos de crise?

A manchete parece contraditória em uma primeira análise, mas não é. E você sabe qual é um dos principais fatores responsáveis por isso? A inflação alta.

Diferentes grupos e agentes têm a possibilidade de se proteger contra o aumento persistente do nível geral de preços. Vamos analisar cada caso.

1) Bancos: os recursos depositados em conta corrente não rendem juros, enquanto os juros dos empréstimos, que geram as receitas, são reajustados. Quanto maior a diferença, maior o ganho. Nos anos em que o Brasil experimentou a hiperinflação, as instituições financeiras foram extremamente beneficiadas;

2) Governo: pode, em última análise, imprimir mais moeda para dar conta de suas necessidades. Outra possibilidade envolve a tomada de recursos emprestados, criando ônus para as futuras gerações dos pagadores de impostos;

3) Ricos: conseguem se resguardar através da aplicação de suas economias em investimentos que garantem a reposição da inflação, mais um juro extra.

Entretanto, a população pobre, por definição, não consegue gerar poupança, ou seja, é a parcela que mais sofre com a perda do poder de compra da moeda.

A melhor forma de promover a queda da desigualdade de renda é através do CONTROLE DA INFLAÇÃO.

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,em-crise-brasil-ve-numero-de-milionarios-aumentar,10000089814